Ai ai, quanto mais leio do bom velhinho, mais me apaixono. No capítulo A gaveta, os cofres e os armários , Bachelard disseca as sensações que tais espaços provocam na intimidade do ser.
Sem as chaves!… Era estranho!– Sonhava-se muitas vezes
Com os mistérios adormecidos entre seus flancos de madeira
E acreditava-se ouvir, no fundo da fechadura
Aberta, um ruído longínquo, vago e álacre murmúrio.
Não se trata aqui de saudosismo ou apego a objetos que tem história comnosco, mas sim trata-se de sonhar, de permiritmos vivenciarmos emoções que cultivamos desde a infância, quiçá de antes dela. Creio ser de suma importância permitirmos a nós mesmos, o tempo das emoções distantes, não corriqueiras, muito longe dos padrões da telenovela.
Percebo que as pessoas passam a sentir, a pensar e falar como personagens caricatos de novelas televisivas. Isto é pavoroso, pois alem de estarmos reduzindo nosso vocabulário, por conseguinte estamos reduzindo nosso padrão de pensamento ao aqui e agora, mas não da forma zen budista, o presente como eternidade, mas sim da forma da perda da alma. Falo do aqui e agora sem conteúdo, vazio, vivendo da expectativa do próximo momento. Existamos com plenitude:
Quando damos aos objetos a amizade que convém, não abrimos o armário sem estremecer um pouco. Sob sua madeira ruiva, o armário é uma amêndoa muito branca. Abri-lo é viver um acontecimento de brancura.
Tudo aquilo que tem um sentido, possui alma. Ao darmos sentido, damos alma, conteúdo, pois se caminharmos pelas ruas do centro do Rio, sem conhecermos a história das pedras sobre as quais caminhamos, podemos dizer que estamos caminhando sem sentido. Logo, ao estudar a história dos objetos, carregamos os mesmosd e sentido, alma.
Verdadeiramente, só a alma quando nos emocionamos. Também não basta ler, estudar, se não formos capazes de nos emocionar.
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