Gustavo Mutran Artwork

Arte, musica, video, e pensamentos

Recuperando os Brasões da Fragata Constituição

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A F42, Fragata Constituição

Há alguns anos que realizo trabalhos artísticos para a Marinha do Brasil. Normalmente quadros de navios para presentear comandantes ao fim de um período de comando à frente de uma embarcação. Desta feita, fui abordado com a missão de restaurar os brasões de uma Fragata.

E lá fomos nós à base de Mocanguê na baía da Guanabara inspecionar o que seria a faina da vez. Chegando ao navio, encontramos as placas de metal no estado em que você pode conferir aqui abaixo.

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Um dos brasões da F42

Para quem não faz ideia, o brasão é a alma de um navio, contendo os símbolos que tratam dos elementos relativos ao seu batismo. No caso, a F42 carrega a carta da constituição em seu centro, defendida pela espada, que no caso representa a arma da força naval. Sempre em dupla, os brasões estão posicionados na chaminé do navio.

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O brasão boreste

Após a visita, aguardei que retirassem os brasões da chaminé e me chamasse para leva-lo para restauro. Foi necessário que o navio atracasse no Arsenal de Marinha para que pudessem retirar os brasões com um guindaste. Meu prazo era de 7 dias. Deu um calafrio mas fomos com tudo!

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Prontos para o transporte!

Com as peças em mãos, mãos à obra! 200 cm x 150 cm de puro metal cada! Material devidamente comprado, espátula à mão, retiramos o grosso das tintas e da oxidação. Após, lixamos as placas para nivelarmos as camadas anteriores.

Nota: O ideal era deixarmos a placa crua, retirarmos todas as camadas anteriores de tinta e trabalharmos uma base, refazendo todo o desenho após minucioso registro do desenho. O tempo de que dispúnhamos foi proibitivo neste caso, pois tínhamos apenas sete dias para as duas placas com um final de semana no meio e um feriado. 

Percebemos que havia pelo menos quatro camadas de tinta, além de uma de zarcão.

Usando esmalte à base d’água da Sherwin Williams, procuramos nos aproximar da belíssima pintura que havia no piso da F42, como você pode conferir aqui:

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Essa coisa de alma do navio é levada a sério!

Obviamente que cada pigmento se comporta de uma determinada forma, de acordo com o suporte da pintura. Sobre um piso é uma coisa, em metal, outra, ou ainda madeira, alvenaria etc. Precisamos levar em conta a ação das intempéries e ainda, a inclemência da maresia sobre a vibração da cor e sobre o suporte. Com tudo isto em mente, saturei bastante as cores do Brasão, sabendo que elas iriam esmaecer e chegar no tom correto em um mês de exposição, no máximo.

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Agora é esperar secar e passar as camadas de verniz.

Prontinho, pronto para embalar, transportar e içar!

Quero agradecer por ter chegado até aqui neste espaço despretensioso. Espero que tenha gostado. Posso  lhe dizer que foi um trabalho extremamente gratificante, principalmente por poder lidar diretamente com os símbolos nacionais em um momento tão delicado de nossa história. Certamente o patriotismo anda elevado aqui no peito do artista.

Os bastidores de uma obra: o retrato de X

Retrato de X

Retrato de X

Recentemente estive envolvido com a encomenda de um retrato. Não costumo fazer muita publicidade sobre esta área de atividade, mas desta vez todo o processo se deu de uma forma que achei interessante relatar aqui, desde o início até a sua conclusão. De certa forma algumas cordas íntimas foram tocadas, tanto do cliente quanto do artista, além de outras forças imponderáveis que envolvem a elaboração de um trabalho assim.

O cliente em questão, doravante chamado de C, é um conhecido de longa data. Amigo de minha família, dos que possuem muitas histórias compartilhadas, daquelas que ajudam a construir suas memórias enquanto sobre a terra.

Havendo o interesse em retratar sua esposa, falecida a um tempo relativamente curto, passei a ouvir sua história e as passagens envolvendo uma moléstia cruel que a acabou levando deste mundo.

Decidimos, após conversa, fazer a obra em pintura digital, levando em conta o tempo de execução e os custos envolvidos. O tamanho final seria de 60cmx40cm.

Foto enviada pelo cliente

Foto enviada pelo cliente

Isto posto, mãos à obra. Munido de uma foto, comecei o processo de limpeza da imagem, utilizando o Photoshop CS5 e imediatamente passei o background para o Corel Painter 5, utilizando uma caneta ótica da Wacom para “aguar” o fundo. O grande pintor Rubens dizia que pintar o fundo estimula a criação, preparando a mente para o que vem após. Gosto de passar algum tempo nesta etapa do processo,  que é aquele momento em que você não faz absolutamente nenhuma ideia do que o quadro será.

A cada etapa do processo, postava uma imagem no Whathzapp para e ele ia me devolvendo as impressões. Gosto de fazer isto para tentar desmistificar, ou mesmo clarear o processo de elaboração de um retrato.  Já faço isto há mais de vinte anos e não tenho obtido muito sucesso (risos), pois as pessoas que não possuem um contato mais íntimo com criação, não compreendem muito bem e acham estranho. Acredito, porém, que com a quantidade espantosa de videos de processos criativos postados atualmente pelos próprios artistas  isto vá melhorar com o tempo.

Percebo ainda uma ideia romântica a respeito de inspiração divina, quando sei que talento se reduz a 99% de transpiração e 1% de inspiração, parafraseando Thomas Edison.

Estando a obra em acordo com os desejos do cliente, seguimos à etapa de impressão. Fico feliz com a quantidade de materiais importados hoje no mercado, além das variadas técnicas de impressão. Obviamente que isto vai de acordo com o cliente e suas expectativas de gastos.

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Pedido feito!

Impressão concluída, seguimos para a etapa do moldureiro. Mais uma vez, de acordo com o cliente, procuramos adequar e redimensionar a obra, dando o destaque que ela merece. Neste caso foram duas molduras (uma sendo passepartout) e vidro anti-reflexivo. Dependendo da moldura escolhida, pode levar algum tempo, como foi o caso.

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Moldura pronta!

Até aí tudo bem. Segui as etapas de meu trabalho normal de sempre como procurei demonstrar aqui. Acontece que estava lidando com uma questão muito mais sutil: o preenchimento de uma lacuna sentimental e espiritual através da arte. Não costumo por em destaque estes assuntos, mas eles sempre são levados em conta por mim na realização de uma encomenda. Procurar sentir o cliente, além de uma observação psicológica e factual é comum. Tudo isto para perseguir suas expectativas.

O que me causou alegria e espanto, foi ter atingido plenamente estas expectativas. Knockout! Isto pode ser conferido na imagem abaixo.

De arrepiar, não?

De arrepiar, não?

Como diz Cazuza: nadando contra a corrente, só para exercitar. Nado contra a corrente, sou espartano quando o assunto é pintura. Espartano no cobrar, rígido comigo mesmo e todo ouvidos e sentidos para atingir os objetivos, da melhor maneira que me for possível. Esta satisfação não tem preço. Este lucro, dedico aos céus.

Styx – D´après Milano´s Inferno

Eu e meu amor pela obra de Dante, Depp e Doré. E é claro, Milano.

Eu e meu amor pela obra de Dante, Depp e Doré. E é claro, Milano.

Estou lançando pela MAW mais uma experiência em video. Na verdade trata-se de um lyric video para Styx, uma composição quase que 90% instrumental, o que me fez procurar algo que gerasse interesse no video em si.

Assista aqui ao video em Full HD

Compus Styx depois de assistir a um filme com Johnny Depp chamado o Brasil de Do Inferno (From Hell). Fiquei impressionado com a tradição de colocar duas moedas de prata sobre os olhos dos defuntos em favor de suas almas. Serviria como uma paga no além a Caronte, o barqueiro do rio Styx ou Estige. Imediatamente associei ao Caronte do delicioso filme Fúria de Titãs (o primeiro, é claro, com Sir Laurence Olivier como Zeus). A idéia de um barqueiro do Além que conduziria as almas para as outras margens do rio Styx para mim foi muito impactante. Já havia lido sobre este rio nas comics de Conan, o Bárbaro na infância, estudei a obra de Dante quando fiz Belas-Artes, principalmente por causa das gravuras de Gustave Doré, além dos mitos da história ocidental greco-romana.

Posso ainda citar como referência o livro O Abismo de R.A.Ranieri, que não deixa de ser uma versão moderna da obra A Divina Comédia de Dante Aligheri.

Por fim, consegui uma cópia restaurada da obra Inferno de Milano, de 1911. Era justamente o que faltava para fazer o lyric video: uma obra de domínio público. O filme em si é impressionante e aconselho a assistirem por inteiro. Tem outro timming, claro, outro tudo. Afinal, o cinema há mais de 100 anos atrás ainda era baseado muito nas composições pictóricas dos artistas neo clássicos. Mas as imagens são impressionantes.

O audio foi gravado no FK Studio em Niterói, contando com o extraterrestre Franklin Vilaça pilotando os controles, além de contribuir na bateria e baixo do track. Levei bases de teclado e guitarras gravados em casa mesmo, gravei mais algumas faixas de guitarra no estudio FK. Franklin sugeriu algumas alterações no tema de guitarra, simplificando-o.

Na verdade costumo levar a idéia pronta para Frank, gravando em casa a impressão que quero causar no aspecto final, como numa pintura ou filme mesmo. No meio queria criar aquele aspecto grandioso e abissal, das referencias literárias… Persegui sons de barcos, chuvas e praias, dentre outros.

Chamei Mayckell Santos para ajudar nos piantos das almas penadas, o grito antes do solo é dele, além do chorus. Achei o resultado excelente, além de ser muito divertido gravar com Mayckell.

Para os dois solos do final, contei com a colaboração do guitarrista Pedro Samp, um cara excelente e viajado que fez um trabalho magnífico com a guitarra nesta música. Lembro-me dele ter reclamado sobre o trecho a ser solado, algo a ver com a harmonia da base, bem power metal por sinal. Achei engraçado porque ficou maravilhoso o resultado final, abrindo uma outra janela pra música.

Queria dar um toque com cellos no final, amenizar um pouco o peso. Estávamos tocando na época com o tecladista Elias Alves e ficava admirado com timbres de samples que ele conseguia ao vivo. Além é claro de sua performance como músico, apesar de não ter o rock no sangue. Diferente de Pedro Samp, que teve carta branca para gravar o que quisesse, procurei conduzir Elias nos cellos do final. O cello tem a capacidade de vibrar direto no meu plexo cardíaco, e persegui esta nota no final, como algo querendo dizer que a história não acabou… Observem as notas finais de Elias, ele também captou isto.

Bem, Styx é isto aí, espero que curtam o som de quem já foi ao inferno e voltou para contar.

Júpiter Maçã e o Gênio Indomável

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Ainda de luto pela inesperada partida em 21 de dezembro último de Flávio Basso, mais conhecido como Júpiter Maçã, resolvi escrever algumas linhas sobre a obra deste cara que considero simplesmente genial. O tempo, implacável, cuidará de revelar a grandeza de seu trabalho.

Irei concentrar minhas impressões na obra que considero o ápice da fase madura de Maçã, seu último álbum de 2008 intitulado de Uma Tarde Na Fruteira. É bom lembrar que seu primeiro disco solo, A Sétima Efervescência, de 1997, foi considerado pela Rolling Stone um dos cem discos brasileiros mais importantes da História. Além das passagens de Flávio/Júpiter pelas bandas TNT e Cascavelletes, que já fazem parte da história do Rock Gaúcho e merecem um destaque à parte, quero deixar claro que estas fases não são o objetivo deste post, quem sabe um outro no futuro.

Afirmo sem sombra de dúvidas que Uma Tarde Na Fruteira é um dos grandes álbuns da música brasileira. É difícil classificá-lo em termos de gênero musical, assim como é difícil classificar o próprio Júpiter, seria como tentar reduzir o gênio para caber dentro da lâmpada mágica. Música Não Convencional Brasileira? Talvez,  mas irei enumerar aqui algumas das inumeráveis influências e fragrâncias do álbum.

Feito a ressalva, a viagem de Uma Tarde na Fruteira começa pelo título. Tudo em Júpiter parece possuir um significado consciente, ou seja, imputado pelo autor. Em uma entrevista, realizada para Rádio Armazém em fevereiro de 2015, Flávio dá as pistas para a origem do título de seu último álbum, uma certa entrevista feita por Mitchell Glazer a Roman Polanski, um dos ídolos de Basso, cujo trecho transcrevo abaixo.

Polanski não demora a voltar. Escolhe uma pera em uma fruteira e dá uma mordida suculenta. “É engraçado”, ele diz, pensativo. “Passei anos sem conseguir comer isto porque, desde a primeira mordida, eu já ficava com uma tremenda dor de estômago. Era coisa da minha infância. Durante a guerra, quando eu estava no país, não tinha nada para comer. Nós passávamos muita fome.” Ele examina a pera. “Tinha muita fruta, então a gente se empanturrava. Como nós éramos crianças impacientes, não esperávamos as peras verdes amadurecerem. Eu praticamente desenvolvi um tipo de alergia.”

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Esteticamente, as canções pertencem a outro tempo, remetendo a Lupicínio Rodrigues, Beatles, Syd Barrett, Tom Zé, passando por Caetano e Mutantes, com temperos modernistas, construtivistas e futuristas aqui e até um ou outro apelo renascentista ali.

Ninguém melhor que o próprio Júpiter para dizer a que veio logo na primeira faixa do álbum “Marchinha Psicótica de Dr. Soup” que inicia assim:

Antes de nada eu gostaria de explicar
Segue agora um mosaico de imagens mil
Chamado a marchinha psicótica de dr. Soup

Sim, um mosaico de imagens mil é uma ótima definição para começarmos.
Mais adiante ele profetiza os efeitos de sua própria genialidade:

Eu escrevi essa marchinha
Para tocar no carnaval
O milênio passaria e a marchinha seguiria
Sendo cult underground
Mas até 2020 seria revisitada
E virar hit nacional

Veja e ouça aqui a Marchinha

Seguindo ainda na fruteira, grandes somas de matéria sonora popesca (talvez o álbum mais pop de Júpiter), como nas deliciosas “Mademoiselle Marchand”, “Beatle George” e “Síndrome do Pânico” atravesando a gente com uma riquíssima gama de timbres, cores e texturas sonoras, que vem da psicodelia de Beatles 67, Floyd e Dylan, passando pelas nuances experimentais dos anos 70 como em “Violão de Aço” e “Casa da Mamãe”. Flávio Basso é consciente de seu próprio futurismo, de seu material para gostos exigentes, compreendedores das referências contidas nas faixas.

Mais além, “As Mesmas Coisas” (atentem ao sotaque), “Plataforma 6” e “Um Sorvete Com Vocês” são músicas mais intimistas e tocantes. Realmente de conduzir a emoção por paragens ao mesmo tempo cotidianas e atemporais. A letra de “Um Sorvete Com Vocês” possui um teor autobiográfico, triste e solitário. Realmente comovente, nos fazendo lembrar que Flavio Basso era também um grande letrista, com uma estética de não conformidade com o status quo do show business nacional.

Meu apartamentozinho em Santa Cecília
Cozinha pequena e pouca mobilia
Vizinho de Higienópolis melhor padaria

As coisas mudaram agora
Tocaram minha mobilia pra fora…

Ouça aqui “Um Sorvete Com Vocês”

A arte de Flávio é livre e libertadora. Afinal, rótulos, para quê? Como Gaston Bachelard dizia para “estarmos diante da imagem no instante da imagem”, podemos também ouvir tão somente a música, estarmos presentes para ela. O porém reside no fato da mediocridade musical das massas tornar insuportável a vida do gênio neste mundo. Flávio Basso/Júpiter Maçã, em sua irreverência, foi íntegro até o fim. Indomável.

Frazetta, o espelho adolescente.

Me senti um pouco órfão no dia 10 de maio último*. Um dos maiores desenhistas e ilustradores que já conheci veio a falecer vítima de um AVC aos 82 anos. Frank Frazetta era pintor, desenhista e ilustrador, além de influenciar com seu trabalho, gerações inteiras de profissionais e amantes da fantasia e da ficção científica.

Auto-retrato

Auto-retrato

Foi através da arte de Frazetta que conheci Tarzan e Conan, assim como inúmeros outros personagens que povoaram minha imaginação adolescente. Visitei outros planetas, explorei novas civilizações, conheci perigos, deusas e donzelas em perigo, tudo isto através de suas cores de sonhos, de suas cores astrais.

No universo psíquico de sua arte, o perigo está sempre à espreita e qualquer invigilância pode ser fatal, os monstros do nosso inconsciente se fazem presente, os fundos da psique tornam-se figuras assustadoras… É preciso coragem e heroísmo para passar pelos obstáculos da adolescência, pelo auto-conhecimento da própria sexualidade, desvendá-la, afirmá-la. Pântanos misteriosos com répteis assustadores, florestas com símios ferozes e verdugos cruéis, que representam as provas juvenis de inserção da personalidade no meio social. Como lidar com o instinto primal que brota no adolescente? Como encontrá-lo e dialogar com ele no mundo interior para onde ele se refugia, com tantas questões e medos? Ao seu público, seu trabalho cumpria o papel do escudo de Perseu, que especularmente revela, através das imagens, as faces de nossos monstros que começam a apontar suas cabeças.

Iremos abatê-los como fazem os personagens de suas sagas antediluvianas, titânicas? Assim, como os heróis retratados em sua arte,  o braço nunca descansa, pois semelhante a Hydra, a cada golpe desferido sobre uma cabeça, outras surgem…

O mundo primitivo de Frank Frazetta.

O mundo primitivo de Frank Frazetta.

É sabido que cada um de nós contém um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso cotidiano e um eu oculto e noturnal que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos – raiva, inveja, vergonha falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas – ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo nosso eu mais apropriado às conveniências da sociedade. Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a sombra pessoal e continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria de nós.

Frazetta e suas fêmeas mais que fatais!

Frazetta e suas fêmeas mais que fatais!

No caso de Frazetta, é neste território, neste mar revolto e incerto que sua temática situa-se, numa das paginas mais complexas da psicologia humana, a que contem a sexualidade e a ferocidade. Conhece-la, para mim, foi e é um aprendizado.

Descanse em paz, Frank.

Os heróis do submundo das emoções.

Os heróis do submundo das emoções.

*este artigo foi escrito em 2010 e publicado originalmente na versão impressa do Jornal Pôr do Sol.

Galactic Tales: The Legend of Captain Pollen

Para contar como começou a saga de Galactic Tales: The Legend of Captain Pollen, é preciso subir as escadas, ir ao sótão, limpar o pó, tirar o mofo e voltar aos meus tempos de EBA, ou melhor, Escola de Belas Artes da UFRJ. Naquele tempo, nos idos de 1990, conheci uma galera muito louca que viria a ter relevância no cenário pop/artístico carioca e era composta basicamente por Helio Ribera, MAGO, Johnny Theobaldo e Clementino de Jesus. Ah, havia também o Guilherme Briggs, Renato “Mosh” Lima , mas isto é uma outra história. Fiquemos somente com o rock, por ora.

Turma do Sion de 1987

Fase pré EBA. Sou o cabeludo à direita!

No trote fui inserido no universo da Festa do Baco, uma tradicional festa dos calouros da EBA. Nas festas do Baco, a criatividade, as fantasias e o rock´n´roll, rolavam solto! Ah, álcool, sexo e drogas também. Não digo que estava exatamente inserido nestes estes três últimos itens, pois sempre fui tímido e de mal jeito com as meninas, tinha pouca tolerância a alcool e a única droga que consumia minha cabeça se chamava TES: Templo Espiritualista Shriwananda (quem viveu, sabe do que estou falando!). Só bem mais tarde que fui saber que eu era um certo tipo de nerd, mas na ocasião só sabia que me sentia bem deslocado do mundo, sob muitos aspectos. Creio que isto contribuiu muito para todo o processo criativo. Pois bem, formamos algumas bandas logo após a festa onde sofri minha iniciação,  como a Sweet Novel, Wild Sex Machine, Jinx, Wilbor, sempre pautados no rock inglês e, do outro lado do Atlântico,  sofríamos influências de Faith No More, Metallica e Red Hot, bandas em evidência no período.

Turma do Trote de 91

Criativamente, me aproximei bastante do Helio e do Johnny e compúnhamos em parceria as músicas que iríamos tocar nos ensaios, nas festas e em shows como na Praia da Bica, Garage Art Cult, Teatro de Lona da Barra, Circo Voador e Casa de Cultura Estacio de Sá. A veia musical do Hélio Ribera vinha muito do rock inglês: David Bowie, Stones, Siouxsie & The Banshees, The Cure, The Mission, The Cult, dentre outros. Assim, mais precisamente do universo de Bowie e sua fase Glam Rock, da psicodelia temática de Space Oddity veio a inspiração para o nome Diamond Cosmic Pollen. Helio nos brindou com o tema, ainda que num inglês fajuto, algo que mantenho até hoje. Tendo o título, fui em frente! Na época do Wilbor, compus num ato empírico a música Diamond Cosmic Pollen, inicialmente em português, pois apesar do nome, Wilbor só tinha canções em português.

Capa do CD do Jinx

Aqui dá pra observar bem a parceria Mutran/Ribera. Temos ainda contribuições do Johnny e a arte de capa do Renato Lima.

Na composição da letra de Diamond, conceitualmente Space Oddity do Bowie foi a primeira referência.  Ela começa com uma pergunta: “Could I tell you an amazing story?” Provocar a imaginação do ouvinte é o interesse do bardo/narrador. É como se remontássemos ao passado, como se passássemos de vilarejo em vilarejo narrando contos fantásticos para entreter a população. Antigamente estes bardos e contadores de estórias realmente levavam a imaginação dos pobres vassalos e camponeses, homens da terra, para longe. O filme A Viagem do Capitão Tornado aborda o tema.

Na harmonia da música, para o temas de guitarra havia pensado inicialmente nas guitarras de Sargent Peppers dos Beatles. Achava o tema da música dos Beatles muito simples e de impacto e quis emular aquele som.  A base para este tema é um loop básico, como Nirvana, E, G e A, tocados com afinação baixa, à moda Hendrix. Já as bases para as estrofes são funkeadas com um teclado ambiente ao fundo e a harmonia é a mesma da introdução. O refrão é feito sobre uma escala descendente, bem típica de Hard Rock e com overdubs de vocais. A despeito do refrão, a parte que mais me encanta nesta canção é quando o narrador fala diretamente ao futuro Pollen, ao ouvinte. Quis proporcionar um lirismo ao momento, como um instante mágico onde as transformações acontecem, único na música. Muitos autores comentam sobre a importancia do middle eight numa música, ou bridge.  Na verdade, usei um middle sixteen, ou seja, o tempo da ponte duplicado para criar um efeito mais pungente e imersivo.

“You can call Mr. Pollen in the night

With your mind, with your heart, with your soul

You´re a man, can´t deny your destiny

The space was made for you and me.” 

Logo após, voltamos à base de abertura com um solo que permanece grande parte apenas na corda E. Neste início do solo, estou munido dos hammers on, cada vez mais me aproximando da ponte da guitarra, simulando a adrenalina de combater o mal da galáxia dentro de uma nave espacial. O final do solo é claramente influenciado pelo Maiden.

Após o solo segue mais uma vez o refrão e após este, os gritos de batalha e encorajamento ao jovem Pollen debutante. Ouvimos sons de lasers, explosões até que chegamos  ao final apoteótico. Vale dizer que esta parte final é uma clara referência a Flash Gordon do Queen e Dino de Laurentiis.

Official Fanpage

Ouça agora Galactic Tales!

Compor e tocar e interpretar Galactic Tales: The Legend of Captain Pollen foi uma experiência muito gratificante e feliz. Apesar de seu primeiro registro caseiro contar com mais de 15 anos, no fundo GTTLOCP é um passeio dentro do universo de algumas referências musicais pessoais, além de uma homenagem sincera aos meus heróis do rock.

Porém, como toda saga tem vários capítulos, em breve estaremos voltando ao estúdio para mais alguns retoques no audio, a fim de adequarmos melhor o som ao videoclipe que está sendo produzido neste momento.

Mas isto é outra história!

Oriente-se – ou como o príncipe das mil e uma noites virou sapo

ou como o príncipe das mil e uma noites virou sapo!

Um dos monstros maravilhosos do mestre Harryhausen de Sinbad e o Olho do Tigre.

Na minha infância, os filmes de aventura passados no médio oriente eram sinônimos de exotismo, magia, sabedoria e bravura. Refiro-me aos filmes de sessão da tarde como Sinbad e o Olho Do Tigre (1977) com animações deliciosas do mestre Ray Harryhausen, As Mil e Uma Noites (1945), com Cornel Wilde, onde havia um gênio extremamente atrapalhado que usava óculos-fundo-de-garrafa. Hilário! Alá sempre me pareceu sábio e misericordioso nesses filmes, recompensando o destino dos valentes e bravos como no Fabuloso Ladrão de Bagdá (1979) com Peter Ustinov, Roddy McDowall e o eterno Terence General Zod Stamp. Ao final da exibição, havia uma sensação boa de ter experimentado um oriente místico com direito a incenso de sândalo e mirra. Lembranças perfumadas e inocentes…

Terence Stamp

Stamp, o maravilhoso vilão do Fabuloso Ladrão de Bagdad

Saltemos agora das memórias de Cinemascope em Technicolor para uma das manchetes das últimas semanas:

O site de vídeos do Google, o YouTube, bloqueou o acesso a um filme que faz piada de Maomé em alguns países muçulmanos… O filme “A Inocência dos Muçulmanos” não é apenas amador. Produção amadora pode ser inteligente, perspicaz. O acabamento às vezes não é perfeito, mas tem horas que apresenta algo de novo, de engraçado, ou mesmo uma ideia que vale discutir.

Por falar em acabamento, o recente doutrinador em forma de filme “E a Vida Continua” não tem lá os melhores acabamentos do mundo, certo? Foi banido também?

Agora, por falar em idéias, apesar da política do You Tube ser clara permitindo retirar do ar o que quiser, estabelecer suas próprias regras e tals, percebo hoje que existe uma censura atuante e de alcance global no mundo. Um filme amador foi feito falando da vida de Maomé e o mundo veio abaixo. Acaso já não foi feito filmes que apresentaram varias versões para o profeta máximo do cristianismo, Jesus de Nazaré? Jesus para muitos é Deus e, no entanto as reações foram muito mais civilizadas para “A Última Tentação de Cristo”, um livro grego que se transformou num filmaço em 1988 com Willem Dafoe e Harvey Keitel e mostrava uma última tentação de Jesus sofrida no alto da cruz: uma vida de homem! Para quem ainda desconhece, o cristianismo nasceu com dezenas de versões de evangelhos que proliferaram até o século III d.C. Havia o Evangelho de Pedro, de Judas, de Maria, de Madalena… Ao todo deviam existir entre quarenta a setenta evangelhos diferentes (os estudiosos divergem a respeito). A história e os interesses de alguns os reduziram a quatro.

Alguém já se perguntou sobre o que falavam as outras dezenas destruídas? Em comparação, teria cada um de nós só uma pequena faceta em sua personalidade? Somos algum tipo de ser unicelular mental/emocional? Quantos milhares de pensamentos e sentimentos passam por nós num único dia, guiando nossas ações e palavras? Dependendo do QI, a ordem seria de dezenas, centenas de milhares, milhões?

As mil e uma noites - 1945

Olha o gênio atrapalhado de turbante verde ali! Delicioso filme pipoca de QI zero e muitas risadas.

Pois bem, se cada uma das dezenas de narrativas evangélicas existentes até o século III retratasse um Jesus diferente, posto um olhar diferente, da mesma forma que um parente, amigo, colega ou inimigo nos vê, teríamos muito mais material escrito para comparar e possivelmente traçaríamos o retrato de um Jesus infinitamente mais rico e humano. Mas acho que lá no fundo todos sabem que o problema está justamente nesta palavrinha… o diabo do humano! Ah, preferimos muito mais os ídolos para fazermos guerra com eles.

Mas voltando ao retrato, pense bem, não haverá um único consenso entre seus amigos, familiares, colegas e até mesmo inimigos sobre você? Pensou? Pois é, além de todas as discordâncias, este consenso é o que o define como personalidade! Imagine se o livro sobre sua vida fosse publicado apenas na versão do seu parente? Ou de seu inimigo? Ou do seu amante? Possivelmente só teríamos uma parte sua descrita alí.

Isto é reducionismo.

Por que afinal não podemos falar, escrever, filmar sobre Muhammad (Maomé) sem que haja violência e morte? É apenas um filme que procura retratar uma outra faceta! No quesito tolerância a filmes, a Igreja Católica Apostólica Romana está ganhando de lavada. Ao menos no século XXI.

Quanto ao mundo, este segue recuando diante da demonstração de violência. À semelhança da ascensão dos Nazi na Alemanha de 1933, a força dos brutos prevalece mais uma vez e oprime as vozes da diversidade. Mais mortes, mais livros (DVDs?) queimados, mais perseguição a autores e cineastas! “Viva Deus! Deus é o Maior! Não há ninguém maior do que Deus e seu profeta Maomé!” Alguém aí pensou em Adolf Hitler? Qual a diferença afinal? A maldita fé cega?

Se Deus criou homem e mulher, nós, por exemplo, criamos o homossexualismo! Está claro que é isto o que a vida quer: diversidade, pluralidade. Na forma, nos pensamentos, nas expressões, nas sensações, na espiritualização, nas ações etc. Aí está a beleza e a graça! Acaso o céu não é feito de beleza e graça? Ok, você pode pensar “mas o homem é feito de totalitarismos”, ainda que este totalitarismo seja o neoliberalismo. Tal desejo de controle incontrolável oriundo dos poderosos, mas que existe sim em nós também vem do medo. Medo do diferente, do outro, do preto, do branco, do judeu, do cristão, da mulher, do homem, do que fala uma língua diferente, do aleijado, do bonito, do feio, de viver, de morrer, medo do árabe… Seja ele islâmico ou não. Afinal, segundo o mais recente filme de Sacha Baron Cohen “O Ditador”, todos que não moram nos EUA são árabes!

Carl Sagan e a missão Viking

Adoro esse cara! Ficava grudadinho diante da TV de tubo assistindo a Cosmos. Depois, é claro, devorei o livro!

Aprendi com Carl Sagan que pluralidade é sinônimo de riqueza e quero lembrar aqui que o Criador de todas as coisas é um pluralista nato. Veja! Zilhões de mundos por aí, galáxias, vida, universos paralelos, milhões de versões de você espalhadas nos infinitos instantes, cada uma tomando decisões ligeiramente diferentes da sua! É o Cosmos que pulsa. Pode senti-lo agora?

Aprendi com Buda que todos somos Buda e que cada um se iluminará de uma maneira própria, singular, particular a seu devido tempo. Basta de Gautama! Nem ele aguenta mais. Queremos e precisamos muito de José Buda, de Silva Buda, Maria Buda, Você Buda!

Aprendi também com Lao Tse que toda rigidez é morte, portanto aconselho à todos uma saidinha para passarmos cinco minutinhos naquelas cadeiras de massagem no shopping mais próximo. É uma delícia das arábias.

Ah, cuidado com o cóccix!