
A Nau dos Loucos, de Hyeronimus Bosch
Na Idade das Trevas, como ficou conhecida a alta idade média, o medo do inferno era real. Assim, por exemplo, como é o medo de um latrocínio numa metrópole dos dias de hoje.
O medo do inferno embalava os pesadelos do homem medieval a ponto de sustentar o novo império romano, na sua versão apostólica.
A Igreja Católica mantinha seu poder político-religioso com mão de ferro, influenciava o modo de pensar, a psicologia e as formas de comportamento na Idade Média. Do medo tira-se proveito desde as cavernas, logo, muito do poder medieval provinha deste aliado invisível.
Hieronymus Bosch foi um pintor singular que viveu os ecos deste período. O primeiro pintor fantástico da história nasceu no final da baixa idade média e, estudante das artes alquímicas e ocultas, preencheu suas obras com os terrores do imaginário medieval.
Bosch, porém, possuía fino senso crítico e de humor como se vê no quadro “A nau dos insensatos”, ou ainda em “A estrada da vida”.
Nestas obras, o autor usa seus quadros como objeto de crítica social, e, ainda que fosse temente a Deus, via o absurdo do senso comum medieval com tanta insensatez.
Pois bem, vamos traçar um paralelo entre este distante mundo medieval e a nossa realidade. Se, por um momento, formos capazes de sermos apenas visitantes nesta nossa sociedade, veremos nas manchetes dos jornais sangue, assassinato, crimes, corrupção. Na tv, programas espetaculosos que tiram proveito da dor alheia, como abutres saciam sua fome com cadáveres. Mais uma vez, uma tela invisível do medo instala-se em nossa sociedade. O motivo varia. Hoje, para o mundo, pode ser o terror pós 11 de setembro, ou o fim do mundo tão bem figurado nos filmes catástrofes, como o recente 2012.
Diante deste cenário, eu, como alienígena-em-exercício-mental-de-insenção-emocional pergunto:
Será que gostamos de ter medo?
Somos os passantes da metrópole que param ao ver um acidente rodoviário, uma batida de automóvel, que lentificam o trânsito na ânsia de ver-quase-não-vendo o sangue no asfalto, bendizendo-se intimamente por não ter chegado ainda a sua vez. É assim? A gratificação da vida está na presença onipresente do medo da morte?

Detalhe de um Quadro de Bosch
Reduzidos a lacaios inconscientes, percebo-nos iguais aos tripulantes da “Nau dos loucos” de Bosch. Nosso medo nem é mais objetivado ao pos mortem. Não é Satã o objeto do medo, mas fomos tomados pela incosciência da própria vida, vivificados por prazeres fugazes. Assim, vejo que nunca seremos felizes. Pois a felicidade, antes de tudo é a total ausência do medo. Principalmente do medo de ser feliz.
Como uma nota benfazeja, reescrevo aqui o poema de Akhenaton, o primeiro monoteísta da história que, sem medo, baniu o culto de todos os deuses do Egito e instruindo seu povo no caminho do amor e da não-violência:
Eu respiro a doce respiração
Que sai de tua boca
Eu contemplo tua beleza cada dia
É meu desejo ouvir tua doce voz
Até mesmo no vento do norte
De ver meus membros rejuvenerscerem
Através do meu amor por ti
Dá me tuas mãos que têm teu espírito
A fim de que eu o receba
E viva por ele
Chama meu nome à eternidade
E ele não perecerá jamais
Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas das obras de Hyeronimus Bosch(1450 – 1516), pintor flamengo que é tido como o precursor do surrealismo. No Brasil, pode ser visto no MASP em exposição permanente.
março 23, 2010
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